Céu em bronze, vento em roda em torno dos cabelos de Felipa
e das fibras do capim. Os gritos da enfermeira já não se ouviam, tão distante
se pusera a menina. Sabia que só tinha mais poucos minutos até aquela mulher
desagradável alcançar-lhe os passos.
- Passarinhos, venham! A chuva vai cair tão forte e dura que
lhes arrebenta as asas em mil pedaços!
Felipa olhava para trás, segurando a tosse, acostumada que
estava em esconder os sintomas. Longe de sua vista, a enfermeira discutia com o
chofer, um pilantra que sempre aproveitava dias chuvosos pra trabalhar menos
que o devido, ainda que mais fosse necessário. Dizia ele que conservar o carro
foi o compromisso assumido diante do Senhor Ministro, que na última visita à
casa lhe dera em mãos as chaves e uma foto, muito digna, com um número que não
podia ser do telefone da capital porque tinha dígitos a menos. Deve ter sido
erro do homem da gráfica, incompetentes relaxados é o que mais no mundo há. Mas
ele não havia de falhar com tão distinto senhor, seu patrão. Jurou por sua honra
não perder um único parafuso daquela máquina tão bonita.
Luzes percorriam o céu. Felipa corria, com a pele arrepiada
e fraqueza nos joelhos, enquanto os pássaros indiferentes continuavam a voar em
círculos.
- Não vê que a tempestade já está chegando, homem?
- O quê?
Passara mais um estrondo. Nenhum dos dois se tinha ouvido.
- A tempestade! – berra com ódio a enfermeira.
- Exatamente!
- Então, vai ficar aí?
- Claro! É agora mesmo que não saio de jeito nenhum! Onde já
se viu? E se eu me atolar na lama? E se um galho risca a tinta do carro? Não,
não... Se quiser, que vá à pé!
- Mas a menina doente está lá fora, no vento e na chuva!
- Culpa desses incompetentes e relaxados que trabalham
dentro da casa! Eu é que vou pagar o preço por eles? Já disse que não!
Levantando-se lentamente, e já sem conter a tosse pesada,
Felipa sentia dores no tornozelo. Devia tê-lo torcido na última queda.
Continuou a andar e a gritar pelos pássaros, assobiando, girando o guarda-chuva
que vezes sem conta se dobrava ao contrário entregando-se ao vento.
- Não vêem que a tempestade está chegando? Já caem as
primeiras gotas! Venham!
Outro estouro fez vibrar os ares. Felipa assustou-se,
protegeu a cabeça, quase deixando o guarda-chuva fugir em meio à tosse
desenfreada. A enfermeira, girando a chave do carro, benzeu-se com o sinal da
cruz e rezou em nome de todos os santos que desconhecia. Sem nenhum controle da
máquina, pôs o carro saltitar por duzentos metros, sem saber se por causa dos
buracos, da falta de perícia na condução ou de ter passado por cima do
motorista caído ao chão. Um som irritante ecoava dentro do carro, só não sabia
se era a buzina ou o próprio choro.
Os pássaros começaram a voar mais baixo, entretanto, ainda
distantes. O céu já se fazia negro, aceso por raios que orientavam Felipa em
intervalos irregulares. Ainda eram quatro da tarde.
- Não há nenhuma árvore que os proteja, passarinhos, porque
teimam tanto? Rápido, rápido!
Gotas grossas e frias atingiam o carro, abafando qualquer
outro som que lá dentro houvesse. Aquela lata pomposa podia não ser tão grande,
tinha bons faróis. A enfermeira continuava a balbuciar mistérios, nem oração
nem xingamento, apenas o misto de medo e falta de alternativa senão buscar a
filha de seus senhores a tempo de encontrá-la viva e curável. Em meio a
solavancos, um tom mais forte se elevou, provocando uma rachadura do vidro.
Caía granizo.
- Valha-me Deus que essa menina morre agora!
Com as duas mãos, Felipa fazia força, quase carregada pelo
vento, braços esticados e tesos para não perder o guarda-chuva. O corpinho
vergava-se com a tosse. As pedras frias doíam-lhe no corpo, mas incomodavam mais
ainda os pés descalços, desacostumados a espinhos, lama, grama e pedras de
gelo.
- Não, não... - tossia com mais violência - Esse é o único
abrigo para os pássaros perdidos! Não!
Um foco branco raquítico se lançou na direção de Felipa. A
enfermeira finalmente a havia encontrado, mas um barranco impedia que avançasse
com o carro.
- Ó não, aves estúpidas! A enfermeira está a caminho e vocês
continuam a não ver a força da tempestade? Querem morrer a troco de quê?
O vestido em pedaços, molhado, imundo, só aumentava sua vontade
de tossir. As forças já acabavam, mas sentia-se na obrigação de trazer de volta
as aves que vira nascer e partir o ovo, ainda com os olhos fechados. Tão feios
são quando nascem, tão esplendorosos voam entre raios. Duas pedras de gelo
batem-lhe na cabeça, causando muita dor. Tosse com muita força.
A enfermeira, com uma larga tira de couro em torno do corpo
volumoso, não tinha nenhuma agilidade física para correr atrás de Felipa. Já
estava fora de si, repetindo uma reza que só inconscientemente sabia. Via
pouco, pois a menina se havia afastado da luz dos faróis, carregada pelo vento.
Água de chuva e de lágrima se misturavam, e ela as bebia em largos goles.
Parecia ouvir a trovoada chamar seu nome.
Felipa sentia algo quente escorrer pela testa, já atingindo o
queixo. Não sentia muito bem as pernas, mas continuava a andar, trôpega. Tossia
sem trégua, conduzida ao bel prazer do guarda-chuva seduzido pelo vento.
Pressentia que algo se aproxima dela, mas não conseguia ver porque o líquido
quente lhe tinha escorrido sobre os olhos .
Exausta, num passo final daquela dança cruel, sentiu o braço
torcer e, num segundo, já o guarda chuva ia longe. As pernas falharam
completamente e já se preparava para o choque violento contra a terra, quando
uns braços firmes a seguraram.
De dentro da casa, outros empregados ouvem um último
trovejar, mais intenso que outros todos, e vêem um véu branco cobrir o
horizonte. Nem o portão se distinguia no meio de toda aquela água. Em silêncio
pousaram um pano atrás da porta, a fim de não formar poças na sala. Puseram-se
à espera, reverentes.
Os pássaros voltaram no verão seguinte.
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