sexta-feira, 22 de abril de 2016

Coroação | Contos da Terra Má


Viva o rei! Viva!
Saudai o rei que vem e que outro tome o seu lugar!

Se aproxima o cortejo, mulher, em si mesmo absorto,
Passa a esquina onde teu filho, dentre tantos, foi morto
Que grande peso d'ouro pisoteia sua memória
Corre e vê se aproximar quem apagará tua história.

Saudai-o, mulher, saudai-o!
Um brado jubiloso ao ordinário rei que vem!

Três bestas seladas conduzem outra mais feroz,
Todo o povo, por desprezo, ergue alto sua voz
E saúda, entre dentes, entrementes, e escárnio
Mais um rei erigido, mais um ente perdulário.

Viva o rei! Viva!
Viva e goze da miséria que devora sua terra!

Este reino sem pão, sem salvação, deveras roto,
Bebe em honra ao rei chegado taças plenas de esgoto.
Banquetes no palácio, peste, pranto e dor nos lares:
Os desnudos tão honrados, os cobertos, vulgares.

Saudai-o, mulher, saudai-o!
Revestido de farsas, é altivo o rei que vem!

Um exército ridículo de coxos, mendigos,
Abre alas à nobreza ao aguardo de um abrigo
Com lama nos pés calçados, a infâmia em largos passos
Caminha para o trono, segue firme ao fracasso!

Viva o rei! Viva!
Salve o cetro de prata tão grandioso que nos mata!

Tua própria lei é teu algoz, meu rei. E verás
Ministros analfabetos comerem crus teus netos
Teu nome apagado, sem legado conhecido,
Teu corpo seco ao vento, teus ossos apodrecidos.

Viva o rei! Viva!
Saudai o rei que vem e que outro tome o seu lugar!

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