Subjugado pelo medo,
Não tremo nem grito.
Apenas cedo,
Apenas fito
A face de minha vergonha,
Esperando que ela ponha
Sobre mim sua coroa.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
(Um bilhete)
De Amália para Edson, com tinta azul, na ocasião de seus 47 anos de casados:
Não espere que te escreva algo novo,
Te amo e não há nisso novidade alguma.
Também não venho dar notícias, delas se ocupam os que ainda não têm memórias. Venho mostrar-te que o sorriso que nos germinou está em flor novamente.
Se novos não são os fatos nem os escritos, novas são as rugas que o tempo nos faz na testa, onde guardamos com dificuldade cada um dos beijos teimosos que insistem em voltar à boca.
Esplendor de meus muitos dias, te amo e não há nisso novidade alguma.
Amália
Não espere que te escreva algo novo,
Te amo e não há nisso novidade alguma.
Também não venho dar notícias, delas se ocupam os que ainda não têm memórias. Venho mostrar-te que o sorriso que nos germinou está em flor novamente.
Se novos não são os fatos nem os escritos, novas são as rugas que o tempo nos faz na testa, onde guardamos com dificuldade cada um dos beijos teimosos que insistem em voltar à boca.
Esplendor de meus muitos dias, te amo e não há nisso novidade alguma.
Amália
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Talvezes
Talvez a poesia só seja perfeita
Quando recostada em sua invalidez,
Quando entregue à sua limitação.
Talvez o artista proclame
Não a beleza que lhe inunda a alma,
Mas a que lhe falta às vistas.
Talvez o amor seja
Nada mais que um pão velho
Partilhado por dois mendigos.
Talvez a paz só vá ao encontro
De homens mutilados
Pela esperança.
Talvez a vida seja apenas
Um depósito empoeirado
Com caixas de incertezas.
Mas,
Talvez,
Haja algo além.
Quando recostada em sua invalidez,
Quando entregue à sua limitação.
Talvez o artista proclame
Não a beleza que lhe inunda a alma,
Mas a que lhe falta às vistas.
Talvez o amor seja
Nada mais que um pão velho
Partilhado por dois mendigos.
Talvez a paz só vá ao encontro
De homens mutilados
Pela esperança.
Talvez a vida seja apenas
Um depósito empoeirado
Com caixas de incertezas.
Mas,
Talvez,
Haja algo além.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Morte na Sé
Para o turista, o trecho entre o Pátio do Colégio e a Igreja da Sé pode ser nada mais que um trajeto curto feito a passos apressados com pertences comprimidos junto ao peito. Para Afrânio, porém, aquele era um berço. O berço que a cidade, já crescida e caridosa, cedeu a ele para que ali também passasse sua infância. Mesmo depois de grande, diferente de São Paulo, ele não deixou aquelas calçadas ao relento. Principalmente depois de encontrar Irene, bem ali no marco zero. Ao vê-lo com os pés no Rio, a moça maliciosamente se apontou para Cuiabá, até que se encontraram em Santos e a partir dali sumiram do mapa. Temporariamente, apenas.
Muitos meses já tinham se passado quando, durante alguns segundos, Afrânio sentiu-se completamente perdido. Estava trêmulo com todo aquele sangue escorrendo pelas mãos.
Ajoelhou-se perplexo. Pôs a faca debaixo de algumas folhas secas e ajeitou aquele corpo já sem vida sobre o sangue ainda vertente na grama. Afastou-se. Com letargia em todos os músculos, procurou a melhor forma de se esconder de um olhar mais atento e da própria realidade. Precisava se limpar urgentemente.
Por sorte, a imundície do casaco fazia com que o sangue fosse, dentre todas, a mancha mais discreta. Foi quando ergueu os olhos e viu um turista benzendo-se com um sinal da cruz. Lembrou-se da Sé, aquela igreja de grandes vitrais azuis onde não fora batizado. Arrastou-se até escadaria, meio cambaleante, embriagado pela memória tátil dos últimos minutos. Sentou-se, tentando recobrar o fôlego. A indiferença que recebia como esmola penitente da caridade cristã nunca havia sido tão útil como agora.
Entrou. A familiaridade do ambiente somada à angústia interna não o permitiam ter nenhuma sensação de paz, conforto ou seja-lá-o-que-se-sente-quando-se-entra-numa-igreja. Ainda não sabia muito bem o que o havia levado até lá. As pessoas, ajoelhadas em oração, elevavam-se tão grandemente para se encontraram com seu Deus que pareciam nem se dar conta de seus próximos. Era uma subversão às leis divinas, mas Afrânio não sabia disso, apenas sentiu sem poder racionalizar.
O cansaço o fez sentar numa daquelas cadeiras. E de repente viu a cena que mudaria sua vida. Alguém à sua frente tinha a imagem do Cristo. Os olhos eram opacos, como de qualquer outra imagem de gesso mal pintada, mas o Cristo, que era o Salvador, também tinha as mãos sujas de sangue.
Afrânio sentiu como se estivesse arreganhando uma janela depois de um minuto inteiro de asfixia. O Cristo também tinha sangue nas mãos! Quis sair correndo e tocá-lo, unir um sangue no outro e assim ser redimido, mas sabia que o dono daquela imagem não permitiria. Quis comungar, beber do vinho em longos goles que escorressem por todo o seu corpo, mas esse era um privilégio apenas dos sacerdotes. A euforia de libertação não permitia uma prece silenciosa, precisava correr e gritar e pular e... Levantou-se para fazer tudo isso do lado de fora. Mas uma tina de água benta atraiu sua atenção na saída. Pensou que aquela água poderia sacramentar o alívio de sua existência. Contrito, mergulhou as duas mãos.
Era uma água fresca, límpida, que aos poucos foi se tornando tinta com o sangue que saía das mãos pecadoras de Afrânio. Parecia que a água lhe penetrava pelos poros e atingia a alma ressequida. Com os olhos fechados, Afrânio sorriu.
Um homem de terno escuro assustou-se ao ver aquela cena. A essa altura, toda a Praça da Sé já sabia que uma mulher jazia morta no gramado próximo ao metrô. Sem pensar duas vezes, o homem agarrou Afrânio pelos braços e, na confusão, várias pessoas interromperam seu contato com o divino para contactarem a polícia metropolitana.
E foi assim que Afrânio foi preso por ter nas mãos o sangue de Irene. Ele só não pôde explicar que sujou-se com ele tentando salvar a amada desgostosa, que ao se descobrir grávida, enfiou uma faca no próprio ventre por não querer dar ao filho o mesmo berço que ela, Afrânio e a cidade tiveram.
Muitos meses já tinham se passado quando, durante alguns segundos, Afrânio sentiu-se completamente perdido. Estava trêmulo com todo aquele sangue escorrendo pelas mãos.
Ajoelhou-se perplexo. Pôs a faca debaixo de algumas folhas secas e ajeitou aquele corpo já sem vida sobre o sangue ainda vertente na grama. Afastou-se. Com letargia em todos os músculos, procurou a melhor forma de se esconder de um olhar mais atento e da própria realidade. Precisava se limpar urgentemente.
Por sorte, a imundície do casaco fazia com que o sangue fosse, dentre todas, a mancha mais discreta. Foi quando ergueu os olhos e viu um turista benzendo-se com um sinal da cruz. Lembrou-se da Sé, aquela igreja de grandes vitrais azuis onde não fora batizado. Arrastou-se até escadaria, meio cambaleante, embriagado pela memória tátil dos últimos minutos. Sentou-se, tentando recobrar o fôlego. A indiferença que recebia como esmola penitente da caridade cristã nunca havia sido tão útil como agora.
Entrou. A familiaridade do ambiente somada à angústia interna não o permitiam ter nenhuma sensação de paz, conforto ou seja-lá-o-que-se-sente-quando-se-entra-numa-igreja. Ainda não sabia muito bem o que o havia levado até lá. As pessoas, ajoelhadas em oração, elevavam-se tão grandemente para se encontraram com seu Deus que pareciam nem se dar conta de seus próximos. Era uma subversão às leis divinas, mas Afrânio não sabia disso, apenas sentiu sem poder racionalizar.
O cansaço o fez sentar numa daquelas cadeiras. E de repente viu a cena que mudaria sua vida. Alguém à sua frente tinha a imagem do Cristo. Os olhos eram opacos, como de qualquer outra imagem de gesso mal pintada, mas o Cristo, que era o Salvador, também tinha as mãos sujas de sangue.
Afrânio sentiu como se estivesse arreganhando uma janela depois de um minuto inteiro de asfixia. O Cristo também tinha sangue nas mãos! Quis sair correndo e tocá-lo, unir um sangue no outro e assim ser redimido, mas sabia que o dono daquela imagem não permitiria. Quis comungar, beber do vinho em longos goles que escorressem por todo o seu corpo, mas esse era um privilégio apenas dos sacerdotes. A euforia de libertação não permitia uma prece silenciosa, precisava correr e gritar e pular e... Levantou-se para fazer tudo isso do lado de fora. Mas uma tina de água benta atraiu sua atenção na saída. Pensou que aquela água poderia sacramentar o alívio de sua existência. Contrito, mergulhou as duas mãos.
Era uma água fresca, límpida, que aos poucos foi se tornando tinta com o sangue que saía das mãos pecadoras de Afrânio. Parecia que a água lhe penetrava pelos poros e atingia a alma ressequida. Com os olhos fechados, Afrânio sorriu.
Um homem de terno escuro assustou-se ao ver aquela cena. A essa altura, toda a Praça da Sé já sabia que uma mulher jazia morta no gramado próximo ao metrô. Sem pensar duas vezes, o homem agarrou Afrânio pelos braços e, na confusão, várias pessoas interromperam seu contato com o divino para contactarem a polícia metropolitana.
E foi assim que Afrânio foi preso por ter nas mãos o sangue de Irene. Ele só não pôde explicar que sujou-se com ele tentando salvar a amada desgostosa, que ao se descobrir grávida, enfiou uma faca no próprio ventre por não querer dar ao filho o mesmo berço que ela, Afrânio e a cidade tiveram.
sábado, 4 de julho de 2009
(Um soneto)
Os versos que a ti dedico são flores despetaladas
À espera do fruto verde que em pouco irá à mão.
Os ramos que o sustentam são nus, amarelos
Como a seiva que os irriga secreta e lentamente.
Os pincéis em repouso pelo aguado da tinta
Igualmente esperam pela cena a retratar
Aguarda, tu também, a maturação de meu afeto
E rubra se fará a natureza chamada morta.
Terminada tua tela quando já colhido for o fruto,
Deleite triplo teus sentidos sorverão:
A beleza da obra no cavalete ainda úmida,
O sabor adocicado a comprimir teus dentes
E o frescor da sombra que ainda agora deu abrigo
Às pétalas caídas para que o fruto ganhe corpo.
À espera do fruto verde que em pouco irá à mão.
Os ramos que o sustentam são nus, amarelos
Como a seiva que os irriga secreta e lentamente.
Os pincéis em repouso pelo aguado da tinta
Igualmente esperam pela cena a retratar
Aguarda, tu também, a maturação de meu afeto
E rubra se fará a natureza chamada morta.
Terminada tua tela quando já colhido for o fruto,
Deleite triplo teus sentidos sorverão:
A beleza da obra no cavalete ainda úmida,
O sabor adocicado a comprimir teus dentes
E o frescor da sombra que ainda agora deu abrigo
Às pétalas caídas para que o fruto ganhe corpo.
Assinar:
Postagens (Atom)

