quinta-feira, 30 de abril de 2009

A voz e o grito

Nenhum grito fala o que a voz diz.

Estava em seu apartamento, não sei dizer se sozinha, aliás, não saberei dizer muita coisa sobre ela naquele momento. Mas algum incômodo escorria de seus dedos, bastava ver o teclado encharcado do computador.

Era um daqueles dias em que sentia uma comporta de represa se abrir dentro do peito. Seus dedos eram o único escape que conhecia até então, e estavam entupidos. Todas as palavras se embatucavam, passando apenas os batuques. Não era de estranhar que o tamborilar no teclado nada produzisse no editor de texto. Sentia-se uma despatriada da terra das palavras.

Pegou o violão enconstado na mesa do computador. Lá também seus dedos eram ineficientes. Era como uma criança que só sabia emitir fonemas em sol maior enquanto seu espírito ombreava Waldir Azevedo. Pelo menos agora ela entendia porque bebês choravam com tanta frequência.

Não sabia mais o que fazer com toda aquela torrente que já alcançava a altura de seu pescoço e respingava nos olhos. Começava a prender a respiração e afundar. Nesse momento suas falanges já se debatiam em tudo o que via pela frente: paredes, mesa, portas, o próprio corpo. Esfregou a cara mil vezes como se a fricção estimulasse os músculos a buscar alguma palavra dormente ou esquecida nas dobras das juntas.

Desesperada, debruçou-se na janela e gritou.
Eu estava longe, por isso tudo o que percebi foi uma voz feminina se precipitar nono andar abaixo e morrer atropelada pela buzina dos carros. Não houve pedestre que não olhasse para cima, mesmo sem saber em qual direção.

Assim como ela, também sou ignorante das artes, embora as aprecie muito. Gostaria de dizer se aquela voz era um soprano, um contralto ou algo do tipo, mas tudo o que posso afirmar é que era tão penetrante que senti meus dedos dos pés vibrarem e os olhos marejarem. Por pouco não consigo refrear um aplauso esfuziante.

4 comentários:

Eliúde Damásio disse...

Oi, Manu!
Pode copiar sim.

Você escreve maravilhosamente bem!
É uma raridade.
Dá até vergonha... rs

Obrigada e parabéns!

Priscila disse...

Manuuu!!!
TExto penetrante.. credo!
mas adorei o final.. bem seu, ao falar "por pouco nao consEgo.." haha
Saudades maninha!

Elisa disse...

Ai Manu, que lindo! Quase gritei junto! Me lembrou à flor da pele, do Chico.
Saudades!

Franciele disse...

Bah, Manu, muito lindo! Como a Elisa, eu também quase gritei...pena que estou na biblioteca da UFSC! abraço com carinho