quarta-feira, 22 de abril de 2009

Chuva, suor e açaí

Chuva de verão é aquela que pega muita gente de surpresa, principalmente quem odeia guarda-chuva. Pois, nossa personagem se enquadra nos dois casos.

Ela estava na saída do metrô, a chuva custava a passar e a paciência dela escorria em cântaros. Até que entornou-se o balde e ela foi andando, assim, como se nada estivesse acontecendo. Não correu, não protegeu a cabeça, não abaixou o rosto, apenas fluiu calçada afora.

Chegando perto de casa lembrou-se que na geladeira só havia gelo e molho de tomate, por isso passou direto, para espanto do porteiro. A essa altura ela já estava tão molhada quanto a calçada que pisava, só que bem mais limpa. Foi andando até a lanchonete natureba da esquina, sentou-se e pediu um suco de morango com sanduíche.

Reparou na cara de espanto das pessoas que olhavam para ela. No fundo, achava até engraçado, ela sempre gostou dessas pequenas perversões cotidianas que só de quando em vez se lembrava de cometer. Viu quando um rapaz entrou na lanchonete. Ele tinha olhos pretos, barba por fazer e cabelo enroladinho - que pingava chuva como os dela.

Quando seus olhares se encontraram, uma identificação imediata jorrou. Entretanto, sejamos sinceros, identificação é pra seres do mesmo gênero, com eles dois foi atração mesmo. Apurou os ouvidos: ele pediu açaí com morango à moça que trazia o pedido dela. Notou que ele observara seu lanche, e sentiu-se culpada pelo seu X-salada diante de um naturalíssimo açaí, mas o suco salvaria sua reputação, ainda mais por ser de morango.

Lancharam em silêncio, com a chuva rareando em suas vistas e descendo por suas roupas. Observavam-se a cada dez mastigadas, com aquele olhar típico de "finjo-que não-sei-que-você-está-me-olhando". Até tentavam comer no mesmo ritmo, para terminarem juntos. Assim, quem sabe, trocariam saudações no caixa. Mas o açaí era grande e o suco pequeno. Ela, tensa, pediu então um Guaravita - não pra fazer charme naturalista, mas porque gostava mesmo de Guaravita. Abriu e bebeu com toda a paciência do mundo, como quem degusta vinho. Recebeu de volta um olhar agradecido.

Sabe-se lá quanto tempo as pessoas podem gastar comendo um X-salada, um açaí ou bebendo vinho. Mas finalmente tudo isso chegou ao fim e os dois se levantaram para ir ao caixa. Qual não foi a surpresa de ambos ao erguerem os olhos um para o outro: estavam secos.

Secamente se cumprimentaram e saíram sem olhar pra trás.

4 comentários:

Gustavo Racca disse...

Oi, bem!!!!

Twit me!!!!

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Carol disse...

Ai ai... adoro suas crônicas se vc tem inveja de mim em algo orgulhe-se eu quase morro dela por causa da sua maneira de escrever ahuahaua vc jamais escreveria por causa hauhauahua Imaginei o cara de caichinho feito o Jesus luz kkkkkkkkkkkk

Tiago da Costa disse...

Ô manú, de onde vc tira isso hein? Quando for lançar o livro, me chama pra fazer o design.

:)

Priscila disse...

Poxa.. Jusus Luz.. aiai..
eh mt bom andar na chuva cmo se estivesse o maior sol!! haha e entrar na padaria esperar na fila do PAO e do SALAME.. auhau!
Bjao