segunda-feira, 25 de maio de 2009

Liberdade incondicional

Depois de cumprir vinte anos de cadeia, Dagoberto voltava à liberdade vestindo roupas coloridas. Seus sapatos de cadarço seguiam o agente penitenciário e produzia ecos no corredor. Até que alcançaram o silêncio, e com ele, a porta de saída.

O agente já estava acostumado a esperar os "rituais de soltura" dos detentos, por isso destrancou a porta sem se apressar em abri-la. Gostava de ver a liberdade raiar na fresta do rosto daqueles miseráveis, cada reação compunha um novo parágrafo em seu livro de memórias.

- Vai lá, rapaz, a vida te espera.

A porta já aberta espiou pra dentro de Dagoberto, imóvel. O agente, curioso, olhou para a rua e deu uma risadinha de quem não se surpreende com as possibilidades da vida:

- É, parece que é só a vida mesmo.

Reunindo toda a coragem que o manteve vivo ao longo das últimas décadas, Dagoberto deu o primeiro passo. O segundo. No quarto , já estava livre. Virou-se para trás, mas tudo o que conseguiu foi ouvir a chave rodando novamente. Não havia mais retorno, agora estava em liberdade, e não era condicional.

O coração rebelou-se, as palavras fugiram, a umidade da boca foi feita refém, uma felicidade infantil tomou de assalto seu peito enquanto um sorriso o rendia. As pernas, sem pedir permissão, dobraram-se para dar um salto e... imediatamente caiu de joelhos no chão.

Parecia que uma bola de ferro se havia prendido subitamente em seus calcanhares e o fazia girar. Girava, girava, girava. Dagoberto cravou as unhas no chão tentando parar, mas sentiu-se fraco por ter desperdiçado as únicas forças que tinha plantando gotas de suor na terra. Com dificuldade, firmou-se nas pernas trêmulas, buscando apoio na firmeza do horizonte goianense. Foi quando a miragem denunciou-lhe o motivo de todas essas reações: tornara-se escravo da liberdade que ele há tanto tempo perseguia.

4 comentários:

Lex disse...

O que fazer com a liberdade de espírito quando se tem a prisão do corpo?

Lex disse...

Deixa eu colocar mais um comentário pra eu aprontar junto comigo?

Manu disse...

Ok, vou ficar observando suas travessuras. Ao vencedor, as batatas!

J. disse...

Olá vizinha do lastfm, que delcia seu blog, vou tentar sempre acompanhar esta obra. Parabens! Jonadabe Mello